Centro de Memória

08/09/2016 10:10

#FPCEntrevista – Lia Robatto é a primeira a doar acervo pessoal nesta nova fase do Centro de Memória da Bahia

liaEm celebração aos 30 anos do Centro de Memória da Bahia, a coreógrafa, autora de livros sobre dança e produtora cultural, Lia Robatto, doou para a unidade seu acervo físico e digital, compostos por cartazes de espetáculos, programas, estudos, registros de imprensa, fotos, filmagens e outros elementos, que serão disponibilizados para estudos, pesquisas e fruição. Natural de São Paulo, Lia Robatto veio para a Bahia com 17 anos. Foi aluna da polonesa Yanka Rudzka na Sociedade Pró-Arte Moderna e Museu de Arte de São Paulo, além de integrar o Conjunto de Dança Contemporânea da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde se formou dançarina. Foi professora das escolas de Dança e Teatro da UFBA, e em 1970, criou o Grupo Experimental da Dança. Lia Robatto ainda implantou a Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), o Balé do Teatro Castro Alves, atuou como integrante do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e hoje é uma das grandes personalidades do gênero em todo o país. Confira entrevista abaixo:

FPC - O que a arte, e especificamente a Dança, representa para Lia Robatto?

Lia Robatto - Minha vida é toda direcionada para a Dança, foi uma opção que fiz desde criança e permaneci nela, mudando evidentemente as funções e atividades conforme cada etapa da minha vinda. Mas nunca deixei esse vínculo forte com essa manifestação específica. 

FPC - O que a Dança representa para um povo, e qual o papel dela na contemporaneidade?

Lia Robatto - A dança se manifesta desde as primeiras culturas históricas, temos esses registros nas pinturas rupestres nas cavernas, onde já se identificam manifestações dramáticas dançadas. Em cada cultura, estágio civilizatório e comunidade, a Dança tem uma função diferente, seja como ritual ou lazer. Mesmo atualmente em Salvador, ela é muito presente mas, para cada momento, tem uma função diferente. No Candomblé, por exemplo, os rituais sagrados de origem africana são uma manifestação elaborada pelo corpo através da Dança, e é cheia de simbolismos. A Dança também pode ter uma função fortíssima de entretenimento, por exemplo, no Carnaval, onde a população se esbalda dançando. É um coletivo, uma massa que, mesmo sua comercialização e industrialização, não desaparece. Ao contrário, explode e é uma necessidade do ser humano de extravasar, de explodir em alegria. A Dança ultrapassa a realidade. Existem ainda as tradicionais, ancestrais, ditas folclóricas, que tem a função de manutenção da história de um povo, e cada clã, tem uma forma diversa, como Terno de Reis, Bumba-meu-boi. A Capoeira tem uma forma de luta marcial dançada, de golpe, defesa e contragolpe. É claro que não é só através da Dança que um povo se identifica, mas ela faz parte deste hall. E temos a Dança como auto expressão, que é onde eu atuo. Ela é autoral e elaborada, exige uma formação especial que se torna profissional. É a arte como forma simbólica de expressar a vida.

cardFPC - A Dança é uma das poucas manifestações artísticas que necessita de outra arte para acontecer, como a música. Como você descreve essa relação?

Lia Robatto - A Dança pode precisar da música ou não. Já interpretei espetáculo da Yanka Rudzka sem música, chamado “Lirismo”, mas é raríssimo. Na verdade, a Dança tem um vínculo muito forte com a música, mas também pode se inspirar em outras linguagens. Já fiz espetáculos baseados em livros, peças de teatros, poemas, textos literários. Também já fiz espetáculos abstratos só de formas. Há uma linha recente da Dança contemporânea que é baseada na subjetividade, trabalhada com os dançarinos. No último espetáculo que participei, o “Solos Baianos”, do Balé Jovem de Salvador, foi feito um trabalho de ordem psicológica, subjetiva e individual de cada intérprete. Um tipo de Dança em que o bailarino se desnuda física e psicologicamente diante do corpo.

FPC - Qual a sua expectativa, agora que a sua história e parte da memória da Dança na Bahia estará disponível ao público por meio do Centro de Memória da Bahia?

Lia Robatto - Com a idade, mudei um pouco a relação com a minha obra. Eu montava um espetáculo e o descartava, nem havia condição de remontar. Com gasto de dinheiro que seria investido em cenário, figurino, bailarinos, eu preferia montar outro espetáculo. Com a idade passei a valorizar o que fiz no passado, com olhar histórico e perspectiva de contexto. A Dança é efêmera, não tem como permanecer, como a literatura ou a música, que está escrita em partituras e permanece para ser lida em qualquer momento. Quase todas as linguagens artísticas permanecem com o tempo, mas a dança se esvai, então é muito importante que ela seja registrada e guardada para que possa ser usufruída. Não sabemos como foram as danças antes dos primeiros registros porque se perdeu no tempo. A gente imagina que as danças de quase todos os povos primitivos, eram mágicas e ritualísticas, já que usavam sempre máscaras, e só temos essa informação por conta de registros de desenhos em pedras.

FPC - O que você acha desta nova fase do Centro de Memória da Bahia (CMB) de abrir as portas para acervos além da política, para artistas e grupos culturais, por exemplo?

Lia Robatto - Os historiadores, sociólogos e antropólogos já falam que a história da humanidade não é feita só por relatos oficiais. As artes representam muito do que é a cultura de cada época. O registro é muito importante e fico feliz de valorizarem a arte a ponto de considerar importante que seja preservada. Espero que este seja o início de uma vasta produção, pois a Bahia está cheia de artistas com obras importantíssimas e significativas para a nossa cultura. Fico muito orgulhosa de fazer parte das primeiras obras artísticas que estão no acervo do CMB. O que acho importante no espírito do Centro de Memória é a missão de dar acesso a todos, gratuitamente, permitindo que qualquer pessoa possa pesquisar ou, simplesmente, usufruir desse acervo, além de todo cuidado e manutenção técnica com esse material, de não deixá-lo degradar. 

Confira aqui a programação de celebração dos 30 anos do CMB, na qual está o ato de doação do acervo de Lia Robatto e de seu marido, Silvio Robatto.

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