#FPCEntrevista

04/08/2017 09:30

#Flipelô - Alexandra Lucas Coelho, a descolonização do pensamento e a literatura Portugal-Brasil

flipelo

De Portugal para a Bahia, aportando diretamente no Pelourinho, a escritora e jornalista, Alexandra Lucas Coelho estará na Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô, a convite da Fundação Pedro Calmon. Destaque na programação, que vai de 10 a 13 de agosto, a escritora estará em dois momentos, compartilhando sua literatura aclamada e reconhecida pela premiação mais tradicional portuguesa – o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Seu mais recente trabalho – “Deus Dará” (2016) – nomeado neste prêmio - será tema de Conferência no dia 10 de agosto e no dia 12, ela se encontrará com escritores baianos. Ambas ocasiões serão abertas ao público. Alexandra conversou conosco sobre esta vinda à Bahia, confira:

FPCEntrevista - “Deus-dará: um livro que vem da Bahia e vai para a Bahia”, o tema de sua Conferência. O que você prepara para este encontro e de que forma a Bahia se encontra com sua literatura?

Alexandra Lucas Coelho - “Deus-dará” passa-se todo num Rio de Janeiro actual, entre génesis e apocalipse, ao longo de sete dias. Mas é uma espécie de terreiro em que se soltam os fantasmas de 500 anos de história, desde que os tupinambás entraram na água para ver um bote que trazia um estranho ser branco cheio de pêlos e de panos. Portanto, a raiz do livro está na Bahia, e é para a Bahia que ele se encaminha, no final. Talvez por isso, depois de publicar este romance, em novembro de 2016, vim atrás do fim dele. Primeiro para a região de Porto Seguro, entre Canavieiras e Rio dos Frades, depois para Salvador e para o Recôncavo. Dessa estadia nasceu a ideia do próximo romance, que de algum modo será baiano.

Alexandra Lucas Coelho apresentará seu livro ao público na Conferência “Deus-dará: um livro que vem da Bahia e vai para a Bahia”, dia 10 (quinta-feira), às 18h30, na Arena do SESC Pelourinho.

flipelôFPCEntrevista - Um de seus livros, "Vai, Brasil", reuniu crônicas de suas viagens, em 2010. Como você avalia o cenário atual brasileiro e de que forma sua produção se aproxima do nosso país?

Alexandra Lucas Coelho - O Brasil faz parte da minha vida desde que me lembro, pela música, pelos livros. Sempre pensei que gostaria de morar aí um dia. Em 2010 propus ir como correspondente para o Rio de Janeiro e fiquei morando lá até 2014. “Vai, Brasil”, publicado ainda em 2013, reúne parte das crónicas que publiquei ao longo desses anos. Acompanha a bolha pré-Copa, entre a euforia e os sinais do que veio a rebentar. Foi nessa altura que imaginei “Deus-dará”, mas depois o plano do romance rebentou junto com o Brasil. Por isso falo em terreiro, os fantasmas, os espíritos, começaram a baixar, ou a subir. O livro foi para trás, e para o fundo, para olhar o que está aí, na nossa frente. Mas, como já falei, a minha história com o Brasil não ficará por aqui.

Alexandra Lucas Coelho estará com escritores baianos e estudiosos em uma Roda de Conversa, no Centro de Formação em Artes da Funceb, dia 12 (sábado), às 15h.

FPCEntrevista - O que é preciso saber sobre Portugal, hoje, no contexto de seu passado e presente social, que começa a ser assumido pelo país? O que você traz, mais recentemente, em seus escritos sobre esta realidade?

Alexandra Lucas Coelho - Portugal enterrou o seu passado colonial, sobretudo o mais antigo, desde o século XV-XVI, sem enfrentar a maior parte dos seus fantasmas. Até hoje, nas escolas como nos discursos políticos, falta a escala do que aconteceu a milhões de ameríndios e africanos. Até hoje, prevalece uma ideia de que Portugal foi um colonizador brando, melhor do que os outros. Esse branqueamento da história foi polido pela ditadura salazarista, em nome de um império em pleno século XX. Essa ditadura acrescentou um monumento como o Padrão dos Descobrimentos aos monumentos de Belém que já glorificavam a épica da Expansão portuguesa. Mas até hoje não há um sinal físico, um tributo, em forma de memorial ou museu, do extermínio de ameríndios e negros. E estamos a falar de uma escala imensa. De pelo menos um milhão de ameríndios que morreram na sequência da chegada dos portugueses; de cerca de 5,8 milhões de negros que foram tirados por Portugal de África e usados como escravos, sobretudo na colonização do Brasil. E estes são apenas os números calculados a partir dos registos possíveis. Isto significa que Portugal, sozinho, foi responsável por 47 por cento do tráfico humano no Atlântico, enquanto as restantes potências de então — Inglaterra, França, Espanha e Holanda — asseguraram o resto. Em suma, com o tamanho que tem, Portugal inventou a triangulação Europa-África-América no tráfico humano, e foi a maior potência esclavagista do Atlântico. Mas em Lisboa, ex-capital negreira do mundo, continua a não haver sinal disso. 

flipeloO que falta, então, é exumar esse passado, olhar a história inteira, não apenas a bravura mas também a barbárie do apagamento, reconhecer o que aconteceu a milhões de pessoas, saber quem eram, línguas e cosmogonias, artes e resistências. E saber que tudo isso será essencial para ligar passado e futuro, combater o racismo agora, enfatizá-lo como crime. Porque a falta de tudo isso é um racismo continuado, um pensamento colonial continuado. Falta uma descolonização geral do pensamento, de facto. No último ano, várias vozes, recentes e antigas, se começaram a conjugar para que as coisas mudem, por exemplo quanto aos manuais escolares, ou à existência de um memorial/espaço de debate. Mas este debate continua a revelar resistências e medos entranhados em Portugal.

Confira aqui toda programação de Alexandra Lucas Coelho na Flipelô.


Fotos: Banco de Imagens

Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.