Fundação Pedro Calmon

01/12/2017 17:00

Mestre Didi: Memória da Bahia

Mestre Didi: Memória da Bahia

Dois de dezembro de 1917. Em Salvador, nascia Deoscóredes Maximiniano dos Santos. Filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, lendária ialorixá baiana Mãe Senhora, e de Arsênio dos Santos, um Alagbá que pertencia à ‘elite’ dos alfaiates da Bahia, Deoscóredes não só se tornou um artista, como também um alapini - o mais alto sacerdote do culto aos ancestrais. Sua trajetória e obra o tornaram um dos maiores e mais respeitados artistas do país.

A história de Deoscóredes com a arte começou em 1922. Por ter problemas de saúde, seus pais o levaram para o Ilê Agboulá, onde foi iniciado no culto aos ancestrais. Foi lá também que ele aprendeu a manipular materiais, formas e objetos com as lideranças mais antigas do culto orixá Obaluaiyê. Esse universo afro-religioso começou a fazer parte da trajetória não só de vida de Deoscóredes, como também da vida artística de Mestre Didi, como ele ficou mundialmente conhecido.

“Meu mundo mítico, minha maneira de ver o mundo, estão profundamente incorporadas a minha experiência de vida”.


A família como construção de identidade:

Mestre Didi: Memória da Bahia

Photo by Calmax on Visualhunt.com / CC BY-NC-SA

O pai de Mestre Didi era sobrinho de Marcos Theodoro Pimentel, que foi o primeiro mestre de Didi no Culto aos Egungun. A herança de tio Marcos Alapini se constitui pelo culto ao olori Egun, baba Olukotun, o mais antigo ancestral que foi trazido da África na época. A herança de Marcos Alapini, para seu sobrinho Arsenio Alagba passou para Didi, Ojé Korikowe Olukotun. Mais tarde Didi recebeu o título de Alapini, o mais alto do Culto aos Egungun, no Ilê Agboula e anos depois, em 1980 fundou o Ilê Asipa onde é cultuado o Baba Olukotun e demais Eguns desta tradição antiga.

Em 1965, Mestre Didi conheceu a antropóloga Juana Elbein dos Santos. Juana se tornou a companheira em todas as viagens pelo exterior. Foi a esposa que o intitulou como um Sacerdote-artista, porque segundo Juana, Mestre Didi “conseguia expressar sua arte por meio da cultura, que estava sempre ligado às tradições africanas”. Era ela também que falava por ele. Mestre Didi não costumava dar entrevistas e nem falar sobre sua arte e nem de si próprio. A antropóloga ajudou a dar a correta leitura à produção do marido, que segundo ela “reúne a profundidade mística, a tradição e a contemporaneidade da existencial criatividade do sacerdote- artista".

“As obras surgem desse mundo, a partir de minha própria maneira de ver, viver e associar. Elas se inspiram em algumas das formas tradicionais, emblemas herdados dos mais antigos, que para ter validade religiosa devem ser devidamente consagrados”.


Obra – Deuses, Orixás e Candomblé:

Mestre Didi começou fazendo entalhes em madeira, depois vieram os “exus” esculpidos em cimento e barro. Suas formas confeccionadas com contas, búzios, renda de couro e folhas de palmeira são inspiradas em mitos, lendas e objetos de culto aos orixás. Esse universo afro-religioso deu a tônica à trajetória artística de Mestre Didi.

Em 1946, aos 29 anos, publicou o primeiro livro, Yorubá Tal Qual se Fala, que falava sobre a cultura afro-brasileira. Foram 20 livros contando e narrando histórias de terreiros e contos da tradição negra da Bahia. Mestre Didi ficou marcado como escultor, escritor, representante da cultura afro-brasileira e sacerdote do culto aos ancestrais Egungun.

Suas obras são inspiradas nos objetos de culto ligados à tradição nagô. Nas décadas de 60 a 90 participa de institutos de estudos africanos e afro-brasileiros e atua como conselheiro em congressos com a mesma temática, no Brasil e no exterior. Em 1980 funda e preside a Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Asipá, do culto aos ancestrais Egun.


Obras de destaque

• Yorubá tal Qual se Fala, Tipografia Moderna, Bahia, 1946

• Contos Negros da Bahia, (Brasil) Edições GRD, Rio de Janeiro, 1961

• História de Um Terreiro Nagô, 1.edição, Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, 2.edição, Editora Max Limonad, 1988

• Contos de Nagô, Edições GRD, Rio de Janeiro, 1963

• Porque Oxalá usa Ekodidé, Ed. Cavaleiro da Lua, 1966

• Contos Crioulos da Bahia, Ed. Vozes, Petrópolis, 1976

• Contos de Mestre Didi, Ed. Codecri, Rio de Janeiro, 1981

• Xangô, el guerrero conquistador y otros cuentos de Bahia, SD. Ediciones Silva Diaz, Buenos Aires, Argentina, 1987

• Contes noirs de Bahia, tradução francesa de Lyne Stone, Ed. Karthale, 1987

• Opá esin Ati Ejo Meji [Cetro da Lança com Duas Serpentes] 1992

• Àpéré [A Direção] 1993

• Èyè Kan [Pássaro Ancestral]: 1993

• Opá Esin Métá [Os Três Caminhos]: 1993

• Idilé Aiye: Sasará Ejo ati Ibirí [Cetro Reunindo os Símbolos do Panteão da Terra]: 1995

• Opá Osanyin Gbegá [Magnifíco Cetro da Vegetação com Serpentes]1995

• Iyá Agbá - Mãe Ancestral: 1998


“Minhas obras são livres, multiplicam formas, cores e materiais que não tem propósitos religiosos. Evidenciam e manifestam uma particular visão cultural, um recriada continuidade”.


Mestre Didi, o reconhecimento e o mundo

Mestre Didi: Memória da BahiaPor ter trabalhado com o artesanato, Mestre Didi demorou a ter sua obra reconhecida no país. O reconhecimento só chegou em 1989, quando ele foi um dos três brasileiros a participar da histórica mostra "Magiciens de la Terra", em Paris. Na 23ª bienal de são Paulo, em 1996, o artista ganhou uma sala especial e o merecido destaque no país.

Mestre Didi criou esculturas focadas na representação de deuses e orixás do Candomblé. Ele é considerado um dos principais artistas brasileiros que se utilizava da estética e de elementos da cultura afro-brasileira. Suas obras alcançaram grande repercussão e integraram importantes acervos museológicos no mundo. Realizou mostras na Argentina, Gana, Senegal, Nigéria, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha.

A sabedoria do baiano Mestre Didi é transmitida efetivamente via uma extensa produção de esculturas – que lhe rendeu reconhecimento internacional como um artista de vanguarda.

“A minha arte me dá muita alegria e faz que eu me sinta muito feliz e realizado. Ela está ligada às coisas que mais gosto na vida, os elementos da natureza. Esses elementos estão profundamente ligados e associados a nossa maneira de sentir e existir, à terra, principalmente às árvores entre as quais se destacam as palmeiras de onde extraio o material básico para os meus trabalhos, as taliscas ou nervuras de suas folhas, nossos ancestrais, que surgem da terra, nossa grande mãe. Tudo cresce e se renova. Se minha obra humaniza é porque transporta e é capaz de emocionar através da arte a profunda sabedoria de um povo, Agbon – beleza e sabedoria”


Tombamento do Terreiro Ilê Asipá e sua preservação para a hstória:

Para marcar o centenário do sacerdote afro-brasileiro e artista plástico, o Governo do Estado da Bahia realiza uma série de ações através das secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e de Cultura (SeculBA). Um deles será o tombamento do Ilê Asipá pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), órgão vinculado à SecultBA.

De acordo com o diretor geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, é inquestionável o valor histórico do Terreiro. “O tombamento definitivo do Terreiro Ilê Asipá é o reconhecimento da homenagem e reverencia a memória do Alapini Mestre Didi, excepcional artista plástico e detentor de inúmeros títulos da tradição africana, pelos serviços prestados a cultura baiana e brasileira em seu centenário de nascimento”.

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