Livro e Leitura

01/12/2017 11:50

Jovens premiados abordam abismo racial no IV Concurso Escritores Escolares

Apesar da maioria da população brasileira ser negra, o país ainda é palco de grande abismo racial. Três, dos estudantes premiados no IV Concurso Escritores Escolares – Redação e Poesia, coordenado pela Diretoria do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon/ SecultBA, resolveram expressar nos textos a importância de conscientizar as pessoas ao respeito pelas diferenças.

Breno Albergaria Argolo, estudante do ensino médio do Colégio Nossa Senhora da Soledade, localizado em Salvador, foi premiado na categoria poesia, com o texto Preto é resistência.

“O Brasil tem a maior população negra fora da África, mas apesar disso continua sendo escravista na sua essência. O povo negro, que já tem um histórico sofrido, continua a sofrer opressão e não raramente são excluídos de vários ambientes, principalmente no mercado de trabalho tendo que, muitas vezes, se esforçarem o dobro para garantir os próprios direitos”, disse Breno.

Maiores vitimas do desemprego, o atlas da violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado no dia 5 de novembro, aponta que a maioria das vitimas dos homicídios, são os negros, no qual o índice das mulheres aumentaram no último ano.

“A luta das mulheres vai ser bem mais árdua. A sociedade além de ser racista, ainda é muito machista. E é por isso que apesar da grande inserção da mulher no mercado de trabalho, os maiores salários ainda são dos homens. Se tratando de mulher negra, fica mais difícil ainda. A mulher está tão vulnerável que os dados de violências são alarmantes, não sendo surpresa, o índice de violência sofrida pelas mulheres negras ser bem maior do que a sofrida pelas mulheres brancas”, disse Breno.

A poesia é um dos tipos textuais favoritos do jovem, que ressalta, “é algo que não me deixa preso em técnicas. Sinto-me mais livre para falar e me expressar”. Os maiores incentivadores de Breno para a participação no concurso foram os pais e o professor de redação.

Jovens premiados abordam abismo racial no IV concurso escritores escolares

“Fizeram-nos acreditar naquela lei da abolição, é porque
não repararam na favela uma nação, que vive à margem
da sociedade em meio a uma segregação’’.

Trecho retirado da poesia
de Breno Albergaria

Também na categoria de poesia, com o texto Desvelar de uma dor, a jovem Ana Larah Mendes dos Santos, estudante do ensino fundamental II, pela Escola Municipal Gabriel José Pereira, no município de Eunápolis – BA deu voz as dificuldades e os abusos sofridos pelas mulheres negras.

“A maior parte das mulheres negras tem menos oportunidades no mundo do trabalho, sofrem preconceito pela cor e pelo tipo de cabelo, muitos dos seus direitos são violados” disse Ana.

Abusos sexuais, assédio, estupro são alguns tipos de violência contra a mulher. Com base nos dados do Ministério da Saúde, em 2016, a cada duas horas uma mulher sofreu estupro coletivo no país.

“Escrevi sobre esses temas porque eles são vividos, falados e praticados no dia a dia, mas são pouco discutidos e não são criadas ações para resolvê-los. Sabemos que existem leis, que não são cumpridas, e por isso produzo textos como forma de denúncia social”, contou Ana. Na poesia ela expõe também a vida na periferia e o aborto.

Ela acredita que a forma para solucionar esse problema é ter mais vigilância, denúncia e atenção com as vítimas. “Os variados espaços sociais (escolas, igrejas, família, locais de trabalho e outros) precisam debater mais sobre esses assuntos, entendendo que o sujeito mais consciente pode melhorar o lugar onde vive. E mais, o poder público deve criar novos projetos com ações que contemplem as pessoas que têm os direitos violados ou desrespeitados”, disse a jovem.

Ana foi motivada a participar do concurso pela professora de Língua Portuguesa, e decidiu escrever uma poesia, pois é um gênero que permite ao autor se expressar de forma mais intensa. “Eu nunca escrevi para publicar, o que venho produzindo é para transcender sentimentos, expressar situações do cotidiano que me angustiam e que precisam ser anunciadas e discutidas”, ressaltou a escritora.

Sou mulher, negraJovens premiados abordam abismo racial no IV concurso escritores escolares
Moro na periferia
Vejo sangue todo dia...
Acordo às 7h
Vou ao trabalho de "busão"
Quando volto às 23h
Recebo "elogios" de caras indo para curtição

Trecho da poesia Desvelar de uma Dor,
De Ana Larah


Na arte, no esporte, na culinária e na religião, há traços do povo negro em tudo, porém a representatividade nos espaços culturais e intelectuais é restrita. Como expôs o jovem Felipe Silva (10), estudante do ensino fundamental I, na Escola Professor Bernardino Moreira, na redação intitulada de Ayomide.

“Eu quis relatar um pouco do que ocorre na nossa sociedade, a opressão, as pessoas que vem da baixa camada social e os negros. Levar a conscientização que se deve tratar sobre a entrada deles nesses espaços culturais e intelectuais. Com o empoderamento, o negro aprende a ser negro”, disse Felipe.

‘A casa grande surta quando a senzala aprende a ler’, esse é um dos trechos mais provocativos da redação. O autor explicou o que quis provocar no leitor com essa frase. “A casa grande surta quando a senzala aprende a ler é uma frase que aparece muito na internet e pode ser interpretada de várias maneiras. Esse espaço de leitura e interação educacional é negado à população negra e indígena muitas vezes e, quando essa população consegue entrar nesses espaços, para muitas pessoas é bárbaro, o que remonta o passado do Brasil, quando os negros que viviam nas senzalas aprendiam a ler”, contou Felipe.

Eu como um menino negro periférico sinto que algumas pessoas esperam que eu tenha alguns talentos.
Por exemplo, saber jogar bola ou tocar percussão. Eu até gosto de uma boa percussão, mas negro
não toca só percussão e joga futebol. Negro escreve livro, negro toca instrumento de sopro e de corda, negro sabe ler.

Trecho da redação Ayomide,
de Felipe Silva

Diretoria - Vinculada à Fundação Pedro Calmon/SecultBA, a Diretoria do Livro e Leitura (DLL) é responsável pela execução e implementação das políticas públicas de fomento ao livro e estímulo à leitura. Está em seus objetivos incentivar a prática da leitura, promovendo eventos do setor, como leituras públicas com autores, oficinas de leitura, seminários, feiras, palestras e conferências sobre obras, autores e tópicos importantes da Literatura. Também compete à DLL a promoção do livro, fomentando a produção editorial, elaborando prêmios literários e editais que proporcionem às editoras o acesso a recursos públicos que permitam às mesmas aumentar e diversificar a produção de livros no Estado, dentre outras ações que integram os objetivos do Plano Estadual do Livro e Leitura (PELL).

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