Fundação Pedro Calmon

06/11/2019 10:10

Histórias populares do bairro que sedia o Flin guardam memórias do período colonial

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Foto: Portal Fala Cajazeiras

Um dia alguém mencionou que Cajazeiras era o maior bairro da América Latina e que lá habitavam mais de um milhão de pessoas e assim ficou. O dado se espalhou e virou mais uma das histórias populares que compõem os mistérios em torno da região, que sedia o primeiro Festival Literário Nacional (Flin) do Governo do Estado da Bahia, de 12 a 15 de novembro.

Conhecido pela pedra de Xangô, pelo penicão, pela rótula da feirinha, o bairro de Cajazeiras guarda diversos registros históricos do período colonial do Brasil, conta Nelma Barbosa, professora e pesquisadora baiana. Seu trabalho começou no início dos anos 2000, após uma mobilização de moradores em torno da preservação da pedra, também conhecida como pedra do quilombo do buraco do tatu - espaço de resistência com registros datados do século XVIII. 

"Alguns terreiros também chamavam Pedra de Oxóssi, alguns moradores de Pedra da Onça, onde contam ter habitado uma onça, ou Pedra do Ramalho, porque morou um senhor no entorno que se dizia protetor da pedra, embora fosse evangélico", explica.

Conforme Nelma, o discurso de proteção à pedra, tinha a intenção de proteger um monumento importante para a preservação da memória coletiva negra da região. A princípio, Cajazeiras teria sido um bairro apartado de Salvador, com o projeto de ser um bairro dormitório para os trabalhadores dos Polos Petroquímicos de Camaçari e de Simões Filho.

Contrariando o projeto previsto, pessoas de diferentes lugares começaram a mudar para Cajazeiras e tornar o bairro diverso e autosuficiente como é hoje, com comércio intenso, bancos e até um cartão de crédito próprio da comunidade. A moradora Maria Lúcia Alves dos Santos, que vive há pelo menos 20 anos no bairro, conta que quando mudou para a região era tudo coberto por vegetações e tinha pouco comércio no local.

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Foto: Portal Fala Cajazeiras

"Hoje Cajazeiras é um dos maiores bairros da América Latina, né? E cada dia tá crescendo mais. Ainda mais agora que tem hospital, tem bancos, escolas, universidades, supermercados. Deve ter mais de um milhão de moradores aqui. É realmente um bairro muito grande e bom de se morar", diz.

Por reunir diversos bairros, a região carrega um conceito de subúrbio, hipótese que justifica a produção de dados contraditórios. Enquanto o documento do Projeto Urbanístico Integrado de Cajazeiras, realizado em 1977, apresenta uma amostra de 104.335 mil habitantes na extensão que considera Castelo Branco, Sete de Abril, Pau da Lima e outras sete áreas que formariam o bairro de Cajazeiras. Em 2010, uma pesquisa da Conder registrava 190 mil habitantes naquele ano, considerando mais de 10 bairros (Águas Claras, Boca da Mata, Cajazeiras II, Cajazeiras IV, Cajazeiras V, Cajazeiras VI, Cajazeiras VII, Cajazeiras VIII, Cajazeiras X, Cajazeiras XI, Castelo Branco, Dom Avelar, Fazenda Grande I, II, III e IV e Jaguaripe I).

"No bairro do imaginário popular pode ter mais de um milhão de habitantes! Esse é o olhar de quem vive, de quem pertence a esse lugar, não é a Cajazeiras das instituições", diz Nelma, ao explicar as diferenças entre os dados oficiais e os repassados pela população local.

Pré-Flin
Durante pré-festival, Nelma esteve no Colégio Estadual Ana Bernardes, em Cajazeiras 6, para uma conversa com alunos do ensino médio sobre a construção do bairro de Cajazeiras e sua importância para a formação da identidade brasileira. 

Na ocasião, aproveitou para falar um pouco do quilombo do Buraco do Tatu, conhecido por ser um dos mais articulados, do ponto de vista militar, no século XVIII. "O mais interessante é como a Pedra de Xangô, ainda que não tenha nenhuma referência colonial ou espaço na historiografia do Brasil, de repente, guarda lá no seu íntimo uma relação tão forte com a nossa história".
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