Fundação Pedro Calmon

22/07/2020 10:30

O afrofuturimo e representatividade na produção cultural de Salvador

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Dando continuidade à série especial em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Luma Nascimento conversa sobre afrofuturismo com o #FPCEntrevista. Pedagoga, pesquisadora, performer, produtora cultural e de moda, Luma é Embaixadora oficial do Programa Juventude Empreendedora dos Países de Língua Portuguesa e está no Pacto Nacional das Juventudes da AIESEC BR em conjunto com a ONU GERAÇÃO +2030.

 

Idealizadora de iniciativas como Rolezinho e  Afrotonizar, atualmente Luma se dedica aos projetos pessoais Presentyzmo,  Filme de Celular e Lemoriô, com o foco no incentivo de produções de novas narrativas sobre a diversidade étnica e pluralidade cultural.

 

O que é afrofuturismo?

 

Afrofuturismo é um termo norte-americano, que nasceu por volta dos anos 60, e se popularizou pelo mundo inteiro dentro das suas variáveis interpretações. Contudo, ele deixa de ser lido apenas como algo estético na perspectiva da “ficção científica” e se consolida nas ciências das tecnologias e das inovações diante dos trânsitos culturais. Enquanto afro parida aqui na América Latina, leio esse efeito como um "mecanismo estimulador de imaginários realizáveis”. Ou seja, dá para perceber que na linguagem da futurologia o afrofuturismo pode ser algo que não sabemos os resultados, mas podemos opinar estrategicamente a partir do agora.

 

Como o afrofuturismo está presente na moda?

 

Quando ele vem “destraumatizar” pessoas, usando conhecimentos como ferramenta de comunicação. Tem uma moça lá da África do Sul, Thato Kgatlhany, que é empreendedora e desenvolveu mochilas de energia solar para iluminar o caminho de crianças da escola até as suas casas, ajudando também na iluminação para fazer suas atividades. Assim como ela, a gente tem inúmeros exemplos aqui no Brasil, temos as estilistas Goya Lopes que desoculta a afro identidade em suas estampas, a Loo Nascimento (@neyzona), que sempre coloca nas suas coleções conhecimentos culturais do fluxo baiano e da imanência africana aqui presente. Vejo nesses negócios o destraumatizar de hábitos que perdemos no translado étnico para as Américas. Estratégias como essas não são obrigatórias para a existência do afrofuturismo, mas são efetivas para criar perspectivas futuras na redução das perturbações causadas pelo racismo étnico e econômico na geografia mundial.

 

Você vem participando de projetos que se propõem a pensar novas formas de representatividade negra nos eventos culturais de Salvador. Como seria essa nova representatividade?

 

Nunca almejei ser representatividade, inclusive o meu questionamento é quase sempre “por que estamos exaltando o longo fato da “única negra” e não questionando o que realmente está acontecendo para não ter outras pessoas não brancas ali?” O racismo é complexo, então é preciso paciência para acessar o silogismo da coisa com a exotificação da representatividade. Acho que o fato de ter nascido no Brasil, estar vívida, é um incentivo para automatizar a aceitação da existência afro-brasileira como pessoas e não como pontos ou objetos de representatividades. É quase que divulgar que não somos mão de obra contínua e que pessoas não brancas são pertencentes de todo território brasileiro.

 

O afrofuturismo é presente na cena cultural soteropolitana?

 

Eu posso dizer de todo meu coração que Gilberto Gil é o Sun Ra do Brasil. Em 1969, no mesmo ano que o dito homem pisou a lua, Gilberto Gil era não só preso pela ditadura, mas também um canal radiador sobre o futuro dos nossos novos hábitos, traduzidos em letras e músicas que descrevem tudo que estamos vivendo exatamente agora e até mesmo o que ainda estamos a viver. O Nordeste em si, sobretudo a Bahia, abraça essa presença forte de divindades míticas ancestrais entre o natural e o artificial. Poderia citar muitos nomes, mas dessa vez espero que todo mundo que se sente afro-futurista possa estar representadx em apenas observar a existência e as palavras de Gil. Ele canta juntando o sobrenatural ao real valoroso, sugerindo uma elevação física da consciência.

 

Você tem mais de 20 mil seguidores em seu perfil no Instagram e, por lá, compartilha seus trabalhos, sua rotina, sendo o empoderamento da mulher negra um tema constante. Como é pautar esse tema para tantas pessoas?

 

Acho que minha influência está ligada em ter a epiderme bastante melaninada e conseguir chegar sempre onde eu quero, sem medo do racismo ou dos problemas que pertencem historicamente à mentalidade dos brancos. Não tenho certeza de que empodero mulheres negras, mas almejo inspirar pessoas parecidas comigo a desenvolver suas tecnologias manuais e intelectuais para transformar. Ser observada em redes de comunicações e conexões digitais chega junto com a responsabilidade de QUERER incentivar pessoas a desbloquearem seus traumas com cuidado. Por isso, @presentyzmo. Me sinto uma “recicladora” da minha própria história, que não é só minha. Estou sempre envolvida em situações que desenvolvam a imaginação como sentido a toda essa tecnologia e natureza que tem dentro da gente. Todos nós podemos criar afro-futuros-presentes, pois a todos é dada a técnica de alguma coisa, e dessa técnica desenvolvemos tecnologias de transformar.

 

Quais baianas afrofuturistas você indica para acompanhar o trabalho?

 

Existem trabalhos que já foram feitos e existem alguns que teremos a sorte de acompanhar os seus desenvolvimentos, vou citar algumas baianas que eu admiro e guardo com apreço e cuidado no meu coração:

Neyzona é uma artista que atua não só na moda, mas também na educação digital, com a sagacidade do empreender independente. Com o projeto #EMPREENDENEY, ela partilha sua trajetória e estratégias para o afroempreendedorismo. Xênia França, cantora baiana que rodou o mundo com a sua cosmologia transcendental e compromisso ancestral. Rita Batista é uma jornalista que imprime verdade e coerência em tudo que toca e comunica. É uma mulher do cosmo, trata da mente e do corpo de quem a acompanha. Vilma Reis é uma Socióloga baiana, ativista brasileira e defensora dos direitos humanos, das mulheres, de afro-brasileiros e LGBTs. E eu a considero uma das maiores intelectuais ancestre-atual aqui do Brasil. Vovó Cici é a que guarda os segredos, foi assistente de Pierre Verger. Quanto griot, ela revela segredos afro-futuros-presentes através de histórias contadas e cantadas. Arany Santana é a minha inspiração de permissão para ativação de vários talentos. Hoje Secretaria da Cultura da Bahia, além de todas as suas versões profissionais, ela é mãe do artista Tiganá Santana. Ela é mãe de uma impressão carnal futurista. Encerro com Zeferina Rainha Quilombola, que durante as batalhas enfrentadas aqui no Nordeste, gritava: “morra branco, viva negro”. A importância dela está em nos ensinar todos os dias a matar o branco que nos atravessa de tantas formas negativas.


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