Fundação Pedro Calmon

19/08/2020 07:00

#DiadoHistoriador - Os laços entre discriminação cultural e o conceito de folclore

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Em um discurso histórico, ao tomar posse do ministério da Cultura, em 2003, Gilberto Gil, expressou o conceito de folclore. Nas palavras do Ministro Gil “os vínculos entre o conceito erudito de folclore e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. Folclore é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura de massa é produzido por gente inculta, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual.”

Finalizando a série especial em celebração ao dia do historiador, a FPC convidou Clíssio Santana para uma conversa sobre o que é folclore. O Historiador, coordenador da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé e professor universitário relembra o discurso de posse de Gilberto Gil e levanta questões sobre alguns personagens conhecidos, além de discutir a representação de grupos minoritários em manifestações culturais.

“Não existe folclore, o que existe é cultura

Por que o termo folclore tem um significado negativo em relação a cultura brasileira?

A ideia de folclore é um conjunto de práticas e narrativas criadas a partir do que se entende como “cultura popular”, em muitos contextos pensados de maneira bastante superficial, e às vezes, pejorativa. No ambiente cultural brasileiro, a ideia de folclore foi assentada em concepções muitas das vezes estereotipadas, especialmente, quando se trata das manifestações de grupos subalternizados, em especial; negros, indígenas e mulheres. O problema está na construção dessas práticas, que muitas vezes, se não na maioria delas, é construída de forma estereotipada, racista, homofóbica, misógina e preconceituosa. Discutir e reestruturar essas narrativas se torna imperativo para que possamos utilizar esse enredo de forma positiva, principalmente quando se entende que as narrativas folclóricas são utilizadas, de forma geral, com crianças. Não existe ingenuidade na construção do Saci-Pererê, por exemplo, onde a imagem do “negro malandro” que não é e nem merece ser levado a sério é reforçada.

É possível ressignificar personagens folclóricos que foram construídos a partir de uma ótica racista? 

Sempre é possível no campo da História, mas é preciso estar mais atentos e comprometidos com uma educação antirracista e uma sociedade que preze por isso. Mais uma vez, pegando a figura do Saci-Pererê, que é fruto de uma visão racista, europeizada e preconceituosa sobre o negro e o seu lugar na história do Brasil, podemos trabalhar com ele e suas características a partir do lugar da inteligência, astúcia, criatividade, ludicidade e contrapor com outros personagens históricos, revelando assim um olhar mais amplo sobre esse assunto. Por outro lado, acredito que não precisamos mais nos dias de hoje permanecer eternamente referenciando esses personagens, existe uma gama de personagens que trazem narrativas bem mais interessantes e menos violentas para o desenvolvimento humano, em especial de uma criança, seja ela de qual cor for. Afinal de contas, estamos falando de racismo, e o racismo é um ato de violência, de tal maneira, que nenhuma criança deveria estar exposta à violência. Não é?

Qual a função dos historiadores neste combate sobre a preservação da cultura nacional?

Preservar a cultura é um termo bastante árduo para nós historiadores, a cultura é viva, tem movimento, mudança, dinamismo e tem a ver com cada contexto histórico e a importância que as sociedades do presente direcionam ao passado. Mas, por outro lado, como nos ensina o historiador inglês Peter Burke, o papel do historiador “é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer". Ou seja, na minha concepção historiográfica, preservar a cultura tem a ver com a inserção de outras narrativas, novos sujeitos e novos problemas na nossa trajetória histórica, assim acredito que teremos uma sociedade mais plural, crítica e consciente que as narrativas que chegam ao presente está carregada de seletividade: o estudo do passo é fruto dos problemas do presente.

Qual o papel da biblioteca virtual na manutenção da cultura local e no debate acerca da representação de grupos minoritários em expressões culturais?

O objetivo da Biblioteca Virtual é democratizar o acesso à informação e ao conhecimento através das ferramentas digitais e virtuais. Por outro lado, sabemos que os elementos das culturas locais estão conectados com elementos mais amplos da nossa história. Por isso, penso que a Biblioteca Virtual, pelo seu caráter híbrido, acessível e por ser um órgão público traz à tona a necessidade de fortalecermos a participação de grupos subalternizados e marginalizados, tanto pela cultura quanto pela história. É relevante lembrarmos que muitos desses grupos conhecidos como minoritários, são apenas no campo das representações, ou seja, boa parte da população brasileira é negra e feminina, onde estão essas pessoas nas páginas da nossa história e de nossa cultura? Antes que alguém pestaneje em falar: “está no futebol; deitado em uma rede no meio da mata de tanga; no tabuleiro de acarajé, na frente de uma loja de variedades vestida de “negra maluca’ ou no carnaval”. Digo-lhe desde já! São esses os lugares folclóricos e congelados que labutamos para desmitificar.


Discurso de posse de Gil: www.cartamaior.com.br

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