Fundação Pedro Calmon

12/08/2020 10:10

#DiadaHistoriadora Patrimônio histórico: preservação da história e da identidade cultural

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Dando continuidade a série especial de entrevistas com historiadores, a FPC conversou com Bárbara Saldanha. Bacharel em história e especialista em História Social e Educação pela Universidade Católica do Salvador, Bárbara está, desde 2016, responsável pela coordenação de Processamento Técnico de Acervo do Arquivo Público do Estado Bahia. Em razão do Dia Nacional do Patrimônio Histórico, celebrado em 17 de agosto, a historiadora abordou um pouco sobre proteção e preservação dos bens culturais do país.

 

Qual a importância de tombar bens como patrimônio histórico?

O Patrimônio Cultural se define como um conjunto de bens móveis e imóveis no país, cuja conservação passa a ser de interesse público, por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil ou pelo valor arqueológico, etnográfico, bibliográfico ou artístico. Entendo a importância de tombar bens como patrimônio histórico, sobretudo, para a preservação da memória. Ele representa parte da história e da identidade de um povo. Manter preservados os diversos registros de uma cidade é manter viva a memória e a história de um povo. O historiador Le Goff concebe a importância de conservar bens do passado para que no presente a população se sinta representada em seu local de origem. A memória é ligada a vida social com a presença ou a ausência da escrita e é objeto da atenção do Estado que, para conservar os traços de qualquer acontecimento do passado, produz diversos tipos de documento/monumento, faz escrever a história e acumular objetos.


Qual o papel da historiadora na preservação do patrimônio histórico?

O(a) historiador(a) desempenha um papel imperioso nas práticas de preservação e proteção do patrimônio histórico, visto que tanto patrimônio construído quanto o documental são matérias primas da História. O(a) profissional utiliza vários tipos de fontes, para a construção historiográfica o que exige o conhecimento histórico para entender e compreender os registros e o contexto em que foram produzidos como, também para organizar, por exemplo, o acervo de um arquivo. Para o profissional dessa área é necessário que o patrimônio histórico, tanto material, como imaterial, seja preservado, a partir da própria valorização e respeito com que eles tratam. Parte dos registros da experiência e ações humanas estão em arquivos, museus, centros de documentação e em toda parte. A preservação desses registros é, também, um trabalho dos Historiadores e Historiadoras no ato da classificação, indexação e na divulgação para o acesso e a democratização dos registros.


Quais os principais bens, materiais e imateriais, tombados aqui na Bahia e qual a importância para a preservação da cultura baiana?


Bens materiais – Dos conjuntos urbanos tombados pelo IPHAN no Nordeste, 11 estão na Bahia e retratam o processo de ocupação do território baiano até final do século XIX. As cidades históricas tombadas, Cachoeira, Itaparica, Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália, onde a cana de açúcar, e depois o fumo, foram a base de sustentação econômica. A interiorização do território, que se intensifica no final do século XVII, está representada por Rio de Contas, Mucugê, Igatu (no município de Andaraí), Lençóis e Monte Santo. Estas cidades guardam a memória do período da mineração de diamante no Brasil, fundamental para a ocupação dos sertões, e revelam a importância da religiosidade na estruturação desse território. Por meio do tombamento dessas cidades históricas, percebe-se a preservação da história econômica, populacional e cultural que estruturou esse território. Em Salvador temos o Paço Municipal (antiga Casa de Câmara e Cadeia), Casa dos Sete Candeeiros (local onde foram pendurados sete lampiões de azeite durante a estadia da corte de D. João VI, em 1808), Casa dos Santos da Ordem Terceira de São Francisco, Seminário São Damaso, Igreja Nossa Senhora da Ajuda, Solar da Quinta do Tanque (monumento de linhas arquitetônicas que variam do século XVI ao século XIX, um dos mais belos de Salvador e que hoje abriga o APEB).

Bens imateriais - Festa do Senhor do Bomfim, Capoeira, Samba de Roda do Recôncavo, o acarajé. Essas manifestações e alimento/gastronomia retratam conhecimentos, práticas, modos de vida e de expressão transmitidas de geração a geração, preservando a memória e cultura coletiva. Mantem o vigor do sentimento de identidade, de pertencimento de uma comunidade quanto a sua história e cultura.

 

O APEB é guardião do patrimônio documental da Bahia e está localizado no Solar da Quinta do Tanque, patrimônio histórico e arquitetônico do Brasil, o que é muito simbólico. Como você avalia?

 

Reconheço ambos os patrimônios como importantíssimas fontes de pesquisa para o conhecimento da história da Bahia. O APEB é uma instituição arquivística de referência e um dos mais importantes arquivos públicos estaduais do Brasil. Refiro-me aos bens materiais móveis custodiados pelo APEB, ou seja, o acervo documental produzido, recebido e acumulado desde a época colonial, quando Salvador sediou a capital do Brasil, de 1549 a 1763, até o período republicano, século XXI. A patrimonialização corresponde a um processo de ressignificação do documento. Ao ser ressignificado à qualidade de patrimônio, o documento mantém o seu caráter instrumental, como fonte histórica.

A história da Quinta do Tanque revela as várias funções que o prédio exerceu e os sujeitos envolvidos. Os jesuítas obtiveram por doação do Governador Geral, Tomé de Souza, o Solar nos séculos XVI, XVII e XVIII. O espaço também atuou como laboratório de pesquisas, como hospital e em 1938 a Quinta do Tanque foi doada à Sociedade Baiana de Combate à Lepra. O Solar da Quinta do Tanque, patrimônio arquitetônico, tombado pelo IPHAN em 1949 abriga a sede do APEB desde 1980. Os patrimônios documental e arquitetônico representam significativa e importante parte da memória e da cultura da Bahia e do Brasil.



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