#FPCEntrevista

08/07/2020 10:10

Feminismo negro, representatividade política e desigualdade

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No mês em que se rememora a luta da mulher negra latino-americana e caribenha, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA) conversa com 5 baianas que movimentam a cultura local. Através de uma série especial de entrevistas, a FPC discute, em julho, afrofuturismo, literatura, representatividade e muito mais. 


Celebrado no dia 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha valoriza e preserva a memória de mulheres que foram grandes lideranças. No Brasil, a Presidenta Dilma Rousseff sancionou uma lei instituindo a data como Dia Internacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em homenagem a líder quilombola que, durante o século 18, organizou resistência a escravidão no Mato Grosso.


Historiadora e ativista política, Luana Soares considera que a data demonstra que “a luta das mulheres negras é ancestral, anterior ao marco de nascimento do feminismo ocidental”. Segundo a mestranda em Educação e Contemporaneidade pela Universidade Estadual da Bahia existe em todo o mundo histórias que demonstram que as mulheres negras têm se organizado politicamente e publicamente há muito tempo, “seja nos quilombos, nas irmandades, nas casas de samba, nas cozinhas, nas revoltas como Malês, Búzios, e tantas outras”. 


Integrante da Marcha Mundial das mulheres, Luana pesquisa feminismo negro, violência contra a mulher, racismo e sub-representação política, além de questões relacionadas a medicina popular e a repressão. A historiadora explica que a vida das mulheres negras é profundamente marcada pela tríade capitalismo-patriarcado-racismo, o que pauta a luta do feminismo negro. Para Luana “é importante, relembrar a fala de Ângela Davis quando esteve no Brasil, ao afirmar que é a luta das mulheres negras que empurra os movimentos sociais como um todo”. O que é expresso no Manifesto da Marcha das Mulheres Negras, por exemplo, onde está presente, entre diversas pautas, a luta contra a pobreza e as diversas formas de violência.


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Brena Pinto, Historiadora e ativista política, vê a data como um marcador e sinalizador de um cenário de injustiças e negações da memória do povo negro, sobretudo quando se trata das figuras femininas. “A história, da forma como ela é contada, sempre privilegiou os grandes heróis, homens e brancos, mas sabemos que este país foi construído com muita luta pelo povo negro e que as mulheres tiveram uma participação grande nessa construção”.


Atuante como Secretária Estadual de Mulheres do Partido dos Trabalhadores desde 2017, Brena é doutoranda pela Universidade Federal da Bahia em Estudos de Gênero, Mulheres e Feminismo. Durante o mestrado, pesquisou a atuação de mulheres no legislativo no município de Amélia Rodrigues, lugar onde mora e milita politicamente. A historiadora explica que a política é um espaço onde se predomina a figura do homem. Menos de 10% dos cargos eletivos são ocupados por mulheres, “embora a lei garanta, desde 1997, que 30% das candidaturas sejam de um dos gêneros, mas esse percentual ainda não se reflete no resultado eleitoral. Quando o que está em questão é a representação da mulher negra, esse número é ainda menor”.


Brena considera que o alto índice de desigualdade é resultado da falta de representatividade política. Sendo a política o espaço onde as leis são criadas e executadas, elas refletem aquilo que está sendo representado no Executivo e nos parlamentos. “Não podemos ter uma sociedade justa e igual, se a política não é verdadeiramente democrática e representativa. Então temos um desafio grande de eleger mais mulheres, mais mulheres negras e mais mulheres negras comprometidas na luta antirracista”.




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