Fundação Pedro Calmon

15/07/2020 13:30

Poesia marginal e a atuação da mulher negra

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A segunda convidada do #FPCEntrevista de julho se define como arteira. Cria de Cajazeiras, Rool Cerqueira é escritora, compositora, atriz e gerente de mídia. A estudante de Artes pela Universidade Federal da Bahia integra os coletivos ZeferinaS e Poetas Vivos. Bicampeã do Slam das Minas BA e 3º lugar na FLUP Slam 2019, Rool é coautora do livro Literatura e Periferias e, com seu texto “Sem RG”, participou do livro Poéticas Periféricas.  


Como que começou sua relação com a literatura? 

A literatura não chega para mim carregando o nome de literatura. Ela pula na minha mão como uma possibilidade de respiro, de acalanto e desabafo. Não sei ao certo quando comecei a escrever, mas posso dizer que começo a compreender como escrita válida, ainda que invalidada, aos 9 ou 10 anos de idade, impulsionada a essa compreensão pelos grandes nomes do Rap nacional em suas letras. O papel e a caneta nunca foram os meus materiais favoritos, assim como estudar qualquer coisa, mas foi a essa dupla que me apeguei para me expressar.


E como foi o processo com a literatura oral?

A oralidade faz parte da cultura preta e sempre foi a forma pela qual recebemos e transmitimos os nossos conhecimentos. Como extrato do racismo, essa oralização é subjugada, nada romantizada e chega tardia no meu cotidiano. Começa no ensino médio, em protestos. Eu quase sempre fui linha de frente nessas ações e produzia textos, frases e rimas para utilizar como chamadas e engajamento daqueles atos. Logo em seguida a vergonha foi dando lugar a vontade de falar um pouco além de dor, surgindo assim as participações com poemas em sala, intervenções artísticas, recitais etc.


As ZeferinaS se colocam como um coletivo de artistas marginais. O que seria um artista marginal? 

Trago três significados comuns do termo marginal:  

“Que não se adapta aos princípios estabelecidos nem faz parte de um grupo”;

“Que não respeita leis; criminoso: sujeito marginal”;

“Pessoa que vive à margem da sociedade; delinquente”;


Artista marginal é aquele historicamente excluído. Violentado por questões raciais e sócio-políticas, afirma sua identidade e então questiona e ressignifica esse lugar, tornando-o político e empoderador. Em miúdos, a arte marginal não se trata só do ser marginalizado na arte, mas sim da reafirmação de que tipo de público e produções constroem as bordas e as bases das nossas sociedades. Ser um artista marginal é compreender a importância de transitar saberes e torná-los acessíveis, é compreender também que fazer parte da periferia não significa que não possamos modificar ou reorganizar esta estrutura, a arte tem o poder de Exuzilhar, como nos ensina o Menino Jazz. 


Como foi participar do livro Poéticas periféricas? 

Foi um susto! A gente quando é pretx tem uma grande dificuldade de se ver representado em algum lugar, mas se ver como representação de si e dos outros? Chega parecer surreal. Esse foi o primeiro livro que tive um texto publicado e foi um grande prazer está ao lado de diversos pensadores que conhecia. Hoje nós estamos lá, registrados na história. 


Como você avalia a forma que o circuito editorial local lida com a mulher

preta? Existe uma boa recepção?

Que lugar lida bem com a mulher preta? Acredito que muitos espaços, não produzidos por nós, engulam a seco nossas produções. Os espaços que são abertos, pelo menos para mim, exigem que nossas dores sejam expostas o tempo todo como se eu fosse capaz de falar apenas sobre isso, sinto uma resistência deste mercado para outros temas que relacionados a subjetividade de mulheres pretas e suas criações, que perpassam por outros aspectos de suas vivências.


E nos espaços da poesia marginal? Como é a atuação da mulher preta?

Predominante. Temos grandes mulheres dentro da literatura negra, dentre elas aproveito e cito Mariana Oxente, Jamile Cazumba, Sued Hozanna, Kainná Tawá, NegaFya e Vanessa Coelho. Acredito que para falar sobre a atuação dessas mulheres, apenas essas mulheres. Mas trazendo para o meu contexto, a minha atuação é incisiva e busca transcender o óbvio me mantendo firme no Aiyê.  

 


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