Fundação Pedro Calmon

28/07/2020 10:00

Literatura, internet e representatividade: Uma conversa com a criadora de Um abadá para cada dia

1



Encerrando a série que celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA) conversou com Patrícia Rammos. Produtora cultural, youtuber e atriz, a baiana viu na internet uma oportunidade de colocar em prática os ensinamentos que obteve na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia pautando o empoderamento negro e feminino.

 

Como surgiu a ideia de falar sobre livros nas redes sociais? 

Da minha paixão. Acredito que os livros são a nossa principal fonte de conhecimento. Ler é poder! Independe do gênero. Inclusive, os ditos bobos. E eu sempre quis que mais pessoas gostassem de ler. Livro empodera, liberta, distrai, fortalece, informa.


Você pauta assuntos sérios de forma descontraída, qual a importância dessa abordagem?

As pessoas buscam na internet um pouco de leveza e acredito que, mesmo para se falar de coisas sérias, é preciso botar um pouco de leveza. Senão a gente não aguenta. E é uma linguagem que atinge diversas camadas e faixa etárias. Entendi que para ficar confortável, inteira e poder chegar mais rápido às pessoas eu não poderia inventar muitas coisas. A descontração faz parte de mim. E falar de assuntos sérios da forma mais leve que eu puder é a melhor maneira de estar mais próxima das pessoas. 


Você acha que perfis nas redes sociais como os seus fazem uma aproximação entre os jovens e a literatura? 

Acredito que sim. Esses veículos, quando bem utilizados, são atualmente os meios mais rápidos de conhecimento, de informação. Eu falo sobre mim, sobre eles. As pessoas gostam de se identificar com quem está falando com elas. 


Em diversos vídeos e postagens você aborda o empoderamento da mulher negra. Qual a importância e potência de criadores de conteúdo digital abordarem esses assuntos? 


Acredito que as pessoas precisam se ver. Em todos os lugares. E as redes sociais hoje são os veículos mais consumidos por todos. Então, também devemos estar lá. Mostrando que nós também temos uma rotina, compartilhamos cremes de cabelos, pasta de dente, sofremos por amor, lemos romances para além de livros políticos. As pessoas não nos enxergam nesses lugares e, muitas vezes, nem nós acreditamos.  Nos fizeram acreditar que somos feios, que nossa boca é feia, que nosso nariz é feio, que nosso cabelo é ruim. Acho que esse movimento nosso tem a função de romper tudo isso. Muitos seguidores me falam que falo sobre coisas que eles estão vivendo ou viveram. Acho positiva essa identificação. A pessoa saber que não é a única a passar por determinadas coisas e que estas não são impossíveis de resolver, que o problema não somos nós. É aquela necessária sensação de pertencimento. 


Você tem dificuldade de achar livros com protagonistas pretas? Como você avalia isso e quais estratégias possíveis para aumentar a circulação de livros com protagonistas pretas? 


Sim. Muita. Encontrei uma vez uma autora americana maravilhosa, Jasmine Guillory, de Aliança de Casamento. Ela tem uma série incrível de protagonistas negros/negras, mas só lançou um no Brasil. Ela me contou que as editoras não tiveram interesse em traduzir e publicar mais, isso é muito triste. Ao mesmo tempo, descobri que existem sim livros com protagonistas negros/negras. Não muitos, mas existem. É preciso que a gente os consuma também, que os compartilhe. Acredito que a gente precisa quebrar as estruturas. Isso tem a ver com o racismo mesmo. Na cabeça de muitos, negros não amam, não são amados. É preciso quebrar esses estereótipos. E isso só vai acontecer quando a gente começar a cobrar de todos, quando a gente também consumir o que nos contempla. Tem poucos? Tem. Mas a gente consome esses poucos? Vamos consumir, compartilhar, encher as redes das editoras com pedidos, sugerir. É um momento de desconstrução mesmo. Inclusive, na literatura.

Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.